Desencaixe


 Não se quebrou, as partes continuam inteiras, bastaria um remendo, um certo manuseio que buscasse fazer a  peça voltar ao original. Você pensa em vários arranjos possíveis, mas nenhum lhe parece bom, como se esse juntar novamente fosse um arremedo, não voltará a ser jamais o que era. 

Há um pedido de mudança, um rearranjo explicitado, um deles já não quer seguir do mesmo modo, quedou-se. Não há morte, não há rupturas, mas um desencaixe. 

Acho que na vida também é assim: um dia a gente acorda e aquele pensamento recorrente que  mobilizou você por anos está esmaecido, quase nem existe. A faísca matinal que desencadeava uma sequência de ideias, emoções, sentimentos, projeções, humores, ressentimentos, raiva, medo... está titubeante, frágil. Você não precisa sofrer, não está doendo mais, acabou. O cérebro pede novas conexões, esse passado recorrente já não é alimento.

Não é uma ruptura, nem uma quebra, mas um desencaixe.

Então você se levanta,  abre a janela e deixa o quarto se iluminar, respira fundo. Vai até o banheiro, lava o rosto demoradamente, olha firme para si mesmo, enxerga quem é você nesse espelho.

Olhei, arregalei os olhos e exagerei na expressão, foi então que entendi, não há quebra, nem rupturas mas um desencaixe. Soltei uma gargalhada sem freio:

"- Porra, eu mudei!"

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