Ele não veio
Na mesa da sala o jantar estava pronto, vinho, assado e velas. No ar um borrifar
de lavanda e a música que cantaram tantas vezes juntos.
Flores displicentemente
postas num canto qualquer como se não houvessem sido montadas e remontadas em
várias lugares, até acharem o seu melhor lugar.
Banho tomado, cabelos soltos e
perfumados e sob o vestido florido intimidades de rendas prontas para serem
vistas por mãos atentas.
Ela ensaiou frases prontas, pensou em ler poesia ou só
perguntar por notícias do dia. Tinham tanto pra conversar. Mas o silêncio seria
igualmente bem vindo, bastaria o som dos passos dele chegando, talvez cansados
pelo longo dia, quem sabe ligeiros pela ansiedade de abraçar.
O relógio revelou
tempos estranhos, será possível que já se passara meia hora? uma hora?
Lembrou
do primeiro dia que conversaram até os pescoços doerem, cada qual inclinado para
os olhos do outro. Tinham tanto para conversar.
Ela experimentou o queijo
cortado em pequenos triângulos, avançou para as castanhas e tomou a primeira
taça de vinho. Duas taças. Que relógio estranho, que tempo era esse?
E num
segundo estava sentada na soleira da porta da casa avó, teria talvez 3 anos,
agarrava uma boneca de pano vendo o começo da noite chegar, esperando o pai para
leva-la para casa.
Quanto tempo terá ficado a espera? Não houve choro, nem o
reclamar das crianças, só uma dor funda que a cada dia ficava mais turva e
recolhida. Ele disse que viria, ela pensava, enquanto via o despontar das
estrelas do Cruzeiro do Sul.
A carne tenra estava fria mas saborosa, a boa
terceira taça de vinho, a salada estava perfeita no seu colorido, o arroz com
amêndoas na medida certa, um pouco triste talvez...
Recolheu os pratos, guardou
a taça sem uso, limpou a mesa, a música já não tocava faz tempo. Ah o tempo. O
vestido no sofá da sala, a lingerie sem seu encanto. O último gole de vinho.
Ele
disse que viria?
- Ele não veio... mas o brigadeiro está uma delicia.

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