Eu te amo
Nem bem desperto, mal raiou o dia, entre a primeira respiração e o espreguiçar, eu me lembro: Ah como eu te amo. E me pareceria tão estranho se assim não fosse.
É um amar que não é só sentimento, não tá só no
peito, tá no primeiro pensamento que traz as tarefas do dia, no trabalho que
vamos executar juntos, nas conversas entremeadas de violão e poesia quando há
tanta louça esperando para ser lavada na cozinha.
É um amar que não está só no coração, palpita no
meio do umbigo quando o medo do desconhecido, dos desafios do mundo nos faz curiosos
e tão pequenos. Nessas horas dragões viram príncipes, escalo montanhas e encaro
precipícios. Sim, você está ao meu lado, podemos conquistar o mundo e salvar a
nós mesmos. Somos rei e rainha.
É um amar que escorre entre as coxas, entre o
beijo manso e o beijo cheio de desejo, no abraço que se prolonga na
madrugada e é ao mesmo tempo abrigo e puro cansaço. Gosto quando sua boca se demora
em mim ou quando a minha não tem ponto de partida ou chegada, tudo é para ser
visitado, tocado, experimentado.
É um adormecer nos braços de um homem, encontrando
no centro do coração dele, um lugar tão fundo, quieto, calmo e receptivo que a
gente tem a certeza de que chegou em casa. Por vezes, é no olhar, nas mãos
dadas por sobre a mesa que o nosso lar acontece.
Ah como eu te amo, e nem sei mais quando assim
não era. Começou quando víamos tartarugas no mar turvo da Guanabara? Ainda
guardo a foto do primeiro sorriso ao seu lado, depois vieram tantos outros,
intermeados de lágrimas e dúvidas.
Amar... ou será o mar que abriga um barquinho que
flutua sem pressa ou medo, tudo o que se tem a fazer é se soltar e seguir o
fluxo das ondas. Não escolhi amar, aconteceu durante esse navegar.
É um amar de noites quentes, quartos amarrotados,
animais peçonhentos à espreita enquanto a manhã não chega para nos aventurarmos
por uma nova estrada empoeirada.
Tem livro e tem poesia, tem escrita a quatro mãos
e promessas de escrevermos o mais belo livro das nossas histórias.
Ah como eu te amo, e talvez seja artimanha dos
astros ou anjos, daqueles que vimos no céu nas noites estreladas, ou nas cartas
de tarô revelando a boa sina. Tem reza, tem credo, tem milagre de crescimento e
renascimento.
Tem amor de sobra. Chegam os irmãos, pais,
sobrinhos, avós e meu amor se esparrama, transborda, se alegra nas tardes de
domingo, nas cantorias em torno da fogueira ou na beira do rio. Mar de amor. Somos
todos um.
Ah como eu te amo, festejamos e celebramos, entre
champagnes e 5 estrelas, o simples existir, a fartura da abundante colheita
conquistada naquele momento em que seus dedos, cúmplices e firmes, tocavam os
meus, e simplesmente confiávamos que tudo estaria bem.
Ah como eu te amo, e mesmo quando você se for ou
eu já não mais estiver aqui, vai sobrar amor, espalhado nas vidas que tocamos,
nos lugares onde fomos “nós”.

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