Acompanhadas... e solitárias
Estava sentada com as cartas do tarô em mãos, e foram se colocando pessoas, a maioria mulheres, me indagando sobre os mistérios reservados para o futuro: trabalho, filhos, um novo projeto, um novo trabalho, a saúde.
Mas em algum momento me vi envolvida numa bolha de frases, vindas dessas tantas mulheres, desconhecidas umas das outras, bonitas, gordas, altas, remediadas, pobres, letradas, Vila Madalena ou sertão da Bahia, patroas ou atendentes. Muito diferentes entre si, mas um fio as conectava e a cada frase que eu ouvia é como se mesmo sem saberem eram irmãs em alma... o feminino adoentado.
"Estamos há 21 anos casados, não suporto mais tanto mal humor", "Ele me trata como empregada, outro dia chegou com amigos em casa ao meio dia e exigiu almoço em uma hora, fui pra cozinha chorando", "ele quer voltar, me ligou várias vezes, quer saber se estou só, mas não acho que ele mudou", "não consegue viver sem sexo, por isso me procura", "sim, já tenho outro, mas ele ainda não sabe", "quero uma vida nova, um novo amor", "fiz tudo por ele, cuidei, tirei da bebida, pus comida em casa e só recebi desprezo", "chega, eu me banco, num preciso de homem para me sustentar, mas quero amar e ser amada", "temos 5 filhos, desse casamento que eu vivo sobrou isso, os filhos", "tenho certeza que ele tem uma amante, não vou embora porque gosto demais dele".
Mulheres acompanhadas de seus maridos, namorados, amantes, vivendo longas relações, 10, 15, 20 anos de histórias vividas, mas se sentindo extremamente sós. Acompanhadas e solitárias.
"Vou ser feliz?", "Veja ai se ele me ama!", "Consegue ver se ele tem outra?", "Se eu voltar ele vai me dar valor?"
Em qual momento nos perdemos de nós mesmas? Deixamos de olhar quem somos, e nos percebemos e medimos pela régua do outro? Se ele me valoriza eu tenho serventia!
Tanta energia dispendida para obter aprovação, aceitação e amor do outro e tão pouco espaço para cuidar das nossas feridas, para o enfrentamento das nossas sombras, para a transgressão dos nossos limites. Mulheres fragmentadas, distanciadas do seu brilho, desconectadas da própria força, implorando e ansiando por meios amores.
Iludidas de que o poder está em curar, atrair, prender, manter, cuidar, transformar o outro (e não a si mesmas)... um outro sempre desconexo, injusto, desatento, violento, infantil, pouco amoroso, que não se cuida, que não sabe amar.
Em qual momento nos perdemos de nós mesmas? não nos tornamos as mulheres inteiras, bonitas, verdadeiras, leais, amantes, amorosas, parceiras que podíamos ser? Essas sim, capazes de atrair homens de igual tamanho.
Quando foi que nos contentamos em estar em relações mornas ou mortas, solitárias, sozinhas, mas acompanhadas?
Em qual ponto do caminho fizemos um pacto com a infelicidade, desistimos de ser grandes e lindas e entregamos as escolhas da nossa vida para esse pobre homem?
Talvez esse outro também não cresça porque é o tamanho que cabe na nossa pequenez.
Por fim, não me solidarizei em ternura empática com essas mulheres, julgando e amaldiçoando seus parceiros. Tive vontade de dizer: voltem para casa, tomem um delicioso banho, olhem no espelho, passem batom, chamem seus pares e digam:
"-Eu estava perdida de mim, sem coragem de crescer, mas agora estou aqui querendo caminhar. Você quer crescer e seguir comigo? Vamos aprender juntos".
Se ele disser sim, com certeza, as cartas do tarô vão confirmar um encontro de almas gêmeas. Homem e mulher em busca de si mesmos e construindo um caminho novo juntos.
#Happyend. E foram felizes para sempre.

Simplesmente verdadeiro..dolorido....mas que magia quando descobrimos a nós e nos amamos.. gratidao pelo seu amor !
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