Voando juntos

Nós  já tínhamos realizado outros voos, viajado ao longo dos tempos, descobrindo terras distantes,  jeitos e costumes de viver... às vezes, solitários, noutras vezes em bando, acompanhados por certo.

E foi entre uma revoada e um momento de descanso que nos encontramos. Você tagarelava pelos cotovelos falando das suas aventuras, quantos tropeços, quantas armadilhas colocadas entre as árvores, asas feridas sendo curadas com o tempo e com os cuidados do sol e do vento, a tristeza dos filhotes perdidos para os predadores, seguindo o ciclo natural da vida. Houve outros amores que revoaram naturalmente entre as curvas do tempo. Sim, muitos cantos e muitos lamentos.

Ouvia embevecida, sonhava junto com você em cada relato, e nem sei porque uma serenidade imensa me envolveu, tudo o que queria era receber inteiramente cada história, como se de certo modo também fossem minhas. E era possível acolher tão plenamente porque afinal foi graças a tudo experimentado que você chegara aqui, se tornara quem era, se ofertava tão inteiramente.

Nem sei quanto tempo se passou, só sei que você me ouvia ternamente enquanto eu respirava no seu abraço, como era bom me abrigar nas suas asas... falei dos medos, dos pássaros que não puderem completar o voo ao meu lado, das crias que fizeram seus próprios ninhos, do tanto que eu ansiava aprender, dos lugares a visitar fora e dentro de mim. 

Eu lhe contei que eu soubera que havia vales e planícies de beleza inigualáveis num ponto bem adiante. E também mares, rios, cachoeiras. Talvez houvesse fortes ventos e ventanias em noites densas, mas juntos, a jornada seria rica e segura.

Serenamos lado a lado, como se estar juntos já fosse suficiente alimento. Adormecemos, e foi quando  o cheiro da aurora chegou que nos sentimos prontos: "dormimos no mesmo chão e nos mesmos sonhos".

Éramos um casal, livres, inteiros, amorosos, sedentos de crescimento e aventuras, em busca de ser e construir o melhor de nós mesmos.

E então voamos... juntos.



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