Eros e Psique
Há um momento em que o rosto de deus precisa ser visto, em que a verdade necessita ser revelada em toda força e crueza. Que se faça a luz. Não há encontro de amor que sobreviva às sombras, simulações, limitações ao crescimento e florescimento.
Psique não suportou as exigências de Eros de não ser visto à luz do sol, de não se dispor a participar inteiramente da vida do seu par. Feridas ocultas, segredos, inverdades talvez.
Chega um tempo em que para conhecer o amor verdadeiro há que se abrir mão de amores menores, dos prazeres momentâneos, das construções unilaterais, dos triângulos amorosos, do emaranhado de adoecimentos. Mesmo que machuque, mesmo que doa para ambos.
Eu escolho, como fez Psique, pagar o preço da dor, do abandono, do distanciamento, da solidão, por ansiar pela justa medida do amor, aquela em que as trocas se equilibram, em que o encontro propicia alimento e sustentação um para alma do outro.
Eu escolho partir quando a doença do outro fortalece a continuidade das minhas próprias feridas que lutam para criar cicatrizes. Eu escolho acender a luz e ver o rosto de Eros, deixar as ilusões se esvaírem, ver a face real do homem que insinua nas palavras voos e imensos rasantes, mas na vida real alimenta a dependências dos seus filhotes e tem as próprias asas encurtadas e feridas.
Sigo agradecendo a oportunidade de crescimento. Tenho pouco tempo para fazer minha vida acontecer, para experimentar nesse tempo a sagrada aventura, o brilho e acolhimento dos deuses: amar e ser amada, inteiramente.
Ser o próprio amor em movimento (e isso talvez seja um pleonasmo).
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