Faxina & Filosofia


 Há algo de filosófico na faxina diária, limpar os cantos, aspirar a poeira, jogar fora o lixo, encerar, por cor, iluminar e perfumar, até que a ordem permita a entrada do amor. Sim, é preciso espaço entre os desarranjos domésticos para que o amor flua. O amor é leve e desapegado, mas extremamente exigente. Desordem, mentira, simulações, sujeira escondida debaixo do tapete são contenções a esse fluir.

 Há algo de pacífico e profundo numa casa arrumada pelas nossas próprias mãos. 

Um pouco de nós fica no conjunto, internamente serenamos, sentimento de missão cumprida e de que tudo está bem. Todos são vistos e tem seu lugar.

Por sua vez, filosofar é um vasculhar das sujeiras internas e dos consequentes borrões exteriores, é iluminar o caminho da vida à luz de quem pensou e experimentou a integralidade da existência.

Ah os verdadeiros filósofos... Vencedores das resistências do ego, seguem além das peripécias da personalidade, não se subjugam aos condicionamentos sociais e familiares. Um passo além, mais uma nódoa desfeita.

Aos tropeços, capengando,  mas incansáveis, os filósofos seguem ao encontro do que é "ser humano". 

Cada peça de roupa lavada e estendida no varal para uso e conforto posterior é Sócrates afirmando que "só é útil o conhecimento que nos torna melhores" ou quem sabe a mancha de gordura que insistia em não sair do armário da cozinha seja somente um "Transforme as pedras que você tropeça nas pedras de sua escada".

Uma faxina exige movimento, ritmo, enfrentamentos e fluxo...  talvez Carl Jung tenha mesmo razão "o que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino".

Huuum bom demais minha casa perfumada e em paz. Faxinão dos bons.


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