Pai, as conversas que não tivemos...

 

O tempo passou tão rápido, não tive tempo de amadurecer ao seu lado, ouvir suas histórias e visão de mundo, me aproximar um tantinho das suas dores, conhecer pelos seus olhos meus avós e tios.

Quantas vezes nos sentamos para conversar?

Sedutor, irônico, altivo, culto, tinha música e bom gosto no seu dia a dia. Não tive tempo de entender e sentir  o que para você foi viver sem mãe, sem pai, sem referências do que era ser família.

Como terá sido aprender a vida e o ganha-pão pelas mãos dos cuidadores dos reformatórios públicos? Provável  nunca tenham vasculhado, acolhido ou entendido o que era ser Mario, filho de Julia e Sudário, mineiro com sotaque argentino (pra impressionar as moças), pouco dinheiro mas amante de bons vinhos e manjar de coco. Pescador e alfaiate.

Não me recordo de vê-lo triste a lamentar o destino.

Quais sonhos será você tinha? 

Nunca falamos se havia alguma outra vida que você queria ter experimentado ou se ficara sequelas fundas vindas do abandono. O meu avô e a minha avó nunca estavam nas suas histórias.

Sei que amou outras mulheres, construiu com minha mãe a melhor família que souberam fazer.  Fomos os filhos protegidos pelo suor do seu rosto e pela aceitação do destino que cada qual escolheria.

Sempre senti você ao meu lado, preocupado, protetor, mas extremamente respeitoso das minhas escolhas.

Pena que eu nunca tenha entendido que você esperava ouvir de mim "eu te amo", quem sabe me levar até o altar, ou participar da minha formatura. Eu também não sabia ao certo como era ser filha.

Mas eu sempre soube que foi você quem me resgatou na primeira infância quando meu coração se enrijecia por ter estado longe de vocês por um tempo demasiado. 

Recordo também do dia que deixou as compras que carregava rolarem pela rua quando voltávamos para casa depois de ter tropeçado, sem entretanto, deixar que eu caísse do seu colo. Você me disse: "Tropecei, cai, compras pelo chão, mas você permaneceu nos meus braços".

Pai, vamos conversar?



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