Abra as suas asas ...

 


Já fazia muitos anos que eu o via lá no topo da montanha, a silhueta elegante, usando um turbante com uma pedra preciosa no centro da testa, não distinguia o rosto, era muita luz, mas sabia que ele guardava pacientemente informações, desafios, conhecimento que gostaria de partilhar comigo... Entretanto, como ele estava looooonge, parecia inalcançável. Nas poucas vezes que me aproximei, em silêncio ele mostrava a vastidão do mundo, apontava para além do horizonte,  como a dizer, olha quanto abundância e possibilidades.

E eu temerosa das alturas até tentava me encantar com o lindo por de sol, mas os pés permaneciam atarracados no chão na busca de segurança e do passo em solo firme.

Até que um dia nos encontramos, soube seu nome - Seraphis Bey. É desses mentores sérios, olhar preciso, respeito ao tempo, não me parece ter lá muito senso de humor,  por outro lado sobra acolhimento, escuta, formas variadas de exemplificar, sinais esparramados pelo caminho, milagres... Lembro da primeira lição: ascender é viver na terra o céu, é experimentar na vida a perfeição, é colocar nas mãos feixos de luz branca e dourada a abençoar o cotidiano, o aqui e agora.

E depois foram muitos outros ensinamentos: o fim da vitimização; da necessidade de vivenciar triângulos amorosos envolvendo dor, ilusões e traição; da criança ferida, agressiva, birrenta, que precisava se sentir segura e acolhida; da mulher que quebrou falsas seguranças para saborear o novo e o próprio poder. 

Houve um momento muito especial em que o convite foi para que eu me apaixonasse por mim mesma, que valorizasse quem sou, que me colocasse nas cenas com o tamanho e propósitos que possuo. Uma mulher exuberante, jovem aos 50, 60, 79 anos, respeitosa das próprias rugas e excitada com o próprio vigor. Um ser de tantas existências, com um coração carregado de amor e de  luz, que pedia por um tempo e lugar para se manifestar. 

Sim, aconteceram alguns retrocessos ao longo desse tempo, recheado de choros e mágoas, comandados pelo ego inconsciente, que confuso com as mudanças queria retornar ao velho padrão de dor tão confortavelmente conhecido.

E com a firmeza de quem já comandou exércitos, recordo que Seraphis Bey me olhou nos olhos e disse em profundo amor, sem qualquer ponto de dúvida: "- Aquela menina abandonada, receosa de se entregar ao amor já foi acolhida e curada. Não será mais possível voltar para aquele lugar,  o tempo de sofrimento acabou.  Não se coloque no papel de vítima".

Ao mesmo tempo foram tantos presentes: lugares, pessoas, aprendizados, abraços, culturas. Proteção e companhia nas caminhadas solitárias, parceiros perfeitos nas descobertas. E ao invés de perpetuar choros, a menina veio brincar comigo na sala. Nos descobrimos curiosas da vida, cheias de energia, estabanadas e engraçadas. Seres de luz. Lindas. Eu me amei e fui amada profundamente, uma grande reconciliação comigo mesma, minhas fragilidades, meus erros, minha humanidade, minha grandeza.

Numa tarde, quando novos desafios estavam se colocando no horizonte, a menina e mulher sentiram o coração bater assustado, mistura de medo e ansiedade com a inconstância da vida, com o cíclico movimento de vida, morte e renascimento. Nesse dia Seraphis Bey me esperava no ponto mais alto da montanha, lembro de sentir a brisa fresca no rosto enquanto a noite chegava. Foi quando perguntei: "E agora qual caminho seguir? me ilumine a estrada!" eu orei.

Seraphis Bey pediu que eu olhasse o imenso penhasco que estava a um passo de onde estávamos, senti um calafrio na espinha enquanto olhava o vale lá embaixo, mal via a vegetação e pedras no chão, estávamos muito alto. Por sua vez a paisagem era belíssima, que vastidão, que grandeza, pássaros, cachoeiras, obra perfeita da Criação!.

Voltei a indagar sobre os rumos que eu deveria tomar para continuar meu processo de crescimento, qual seria a melhor estrada, os melhores parceiros, ficar ou partir,  o melhor trabalho, a melhor postura com filho, abertura da compreensão espiritual.... Viver o céu na terra. 

Acho que pela primeira vez vi um sorriso maroto nos olhos de luz desse meu querido Mestre. Foi quando ele disse naquele tom firme e seguro que o caracteriza:

"- Você deve pular no penhasco, não há estrada".

"Tá de brincadeira", eu respondi. "Como assim pular dessa altura e me espatifar no chão???? Não entendi essa lição ".

" Você está pensando em pés seguros na terra, mas agora é tempo de voar!". E completou: "- Você ganhou asas."

E seguiu dizendo, "- No começo enquanto você se acostuma a movimentar suas asas, eu estarei aqui segurando sua mão durante o voo. A única coisa que estamos lhe pedindo é que confie, tenha fé, se entregue, nós estaremos com você".

Tentei ainda argumentar que não queria voar sem meus parceiros da terra. Ele respondeu: 

"- Não se preocupe, você é ave que voa em par, em bando. Logo eles chegarão, alguns já estão em pleno voo, outros se juntarão e quando necessário você poderá rever em terra os que talvez tenham ficado para trás".

Fechei os olhos em prece e agradeci profundamente tudo o que venho experimentando, olhei para meus medos, pedi forças e coragem. E quando a respiração serenou, vi o mesmo sentimento de gratidão se esparramando pelos novos horizontes que estavam sendo abertos. Avancei alguns passos.

Seraphis Bey segurou minha mão e reafirmou sorrindo (sim, eu vi o sorriso):

 "- Pule, abra suas asas, é tempo de voar..."

 


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