É sempre verão...

 


(Toronto, 28 de agosto de 2022)

Ainda é verão, os dias estão quentes e há brilho e alegria nas ruas. É tão bom sentir os raios de sol tocando o rosto. A vida revela a semeadura feita, os frutos se esparramam nos jardins e avenidas. Tempo de colheita e partilha.

Estou só e feliz. Do centro do meu peito se irradia um brilho intenso, que vai se derramando pelas pernas, garganta, topo da cabeça, atinge mãos e pés e transborda pelo espaço. Já não sei o que é raio de sol e o que sou eu. Os contornos ficam frágeis, quase imperceptíveis, tudo é luz, e por um momento somos todos um. Tudo é um só corpo, uma única mancha de luz.

Nesse momento a solidão é completude, não há expectativas, não há porta que precise ser aberta, não há ninguém por chegar, não se espera nada, nem ninguém. Tudo já É.

As expectativas e desejos de ontem estão diluídos no silêncio e na distância. O último beijo, um certo abraço, os corpos entrelaçados e a respiração compassada já se diluíram nos sucessivos dias, que somaram semanas e meses, anos, uma vida... encarnações.

É o milagre de Cronos que devora seus filhos e mistura risadas, vergonha, traição, solidariedade, medos, covardias, carinhos, ousadias, inocência, cobranças, abundância. Tudo vai se transformando em paz, em brisa suave, até mesmo aquilo “que não foi”, também se transmuta em pequenas partículas de luz, que hoje, aqui e agora, se harmonizam com os raios de sol que ora chegam ao meu corpo, ora se irradiam do meu peito.

E é tão bom estar assim, é tão grande e tão feliz estar em mim, há um profundo e intrigante amor nessa solidão: amor por mim, por quem me tornei, ao mesmo tempo que um amor ainda maior por todos e tudo que estiveram na minha vida.

Há tanta paz e plenitude nesse esquecimento, presença e solidão.

Não quero que você entre pela porta me trazendo suas dúvidas, não quero ver sua mão tatear meu corpo com indecisão, não quero sentir as sombras de culpa que seguram seu caminhar e entrega, não quero me recordar que sua alma não se estendeu em compromisso à minha, não quero voltar a sentir a sua ausência ao meu lado.

O meu amor por você e por mim é suficiente para eu viver essa quietude, essa distância, a aceitação do que não floresceu, a serenidade frente as mãos do casal de amantes que quando livres, não se entrelaçaram diante da vida, dos amigos, da família, do amor, de Deus.

Aqui é verão, a luz brilha lá fora e dentro de mim. E quando chegar o inverno quero conservar no meu peito essa mesma alegria.

E para que aqueles que pensam em retornar ou os que chegam à minha vida, se não for para viver o amor em toda essa inteireza, por favor, não venham!

Aqui é verão, a luz brilha lá fora e dentro de mim. E quando chegar a primavera, o outono, o inverno, quero conservar no meu peito essa mesma alegria.

Celebro essa alegria. Celebro a Miriam Ribeiro que eu sou e as escolhas que fiz!

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