Nos perdemos
Nos perdemos, não sei se foi uma
escolha consciente, mas a cada dia as imagens foram ficando borradas, sem cor, confusas. É como se o fio que ligava os corações tivesse se estreitado a tal ponto
que já não se sabe se há pulso, se algo sobrevive. E se vive, se vale os suspiros,
os sobressaltos e calmarias da diástole e sístole.
Talvez um considere que quando a
vida exigiu a verdade, pediu a realidade livre e em terra firme, os sonhos se
perderam entre medos, culpas e fragilidades de Peter Pan. Talvez o outro avalie que tudo está
correto, que o silêncio das indefinições tem seu tempo, que não definir é igualmente escolher, mesmo porque pode não
haver nada mais a ser dito lá diante.
Nos perdemos dos planos de futuro,
das celebrações do ontem, do fazer e pensar abraçados no aqui e agora, do frio na barriga de quem se propõe aventuras, das delicadezas, da poesia falada ou cantada ao violão, da
cumplicidade e intimidade de quem ama.
Nem faz tempo que o pensar de um
encontrava resposta imediata no gesto do outro, perto ou longe sabiam onde cada
qual estava, e mesmo que longínquo fosse, estavam juntos.
O corpo sorria com a alegria do outro, havia compaixão pelas
falhas e fragilidades, erros e acertos eram igualmente amados, sobravam toques de desejo e sedução iluminando os dois corpos.
Nos perdemos do “nós”, do olhar emocionado diante das
parcerias que o presente oferecia e o futuro prometia. As fotos das paisagens
que percorremos ficaram sem título, mostradas com saudade ao outro receberam em troca
silêncio, as cartas de amor não tiveram resposta, a emoção alegre ou infeliz não
recebeu abrigo e abraço nos braços que sempre foram lar e encontro. Nunca mais se ouviu "eu te amo" para além das formalidades, natais e aniversários.
E se há algo a agradecer por essa ponte de distância e silêncio que construímos é não termos nos permitido andar de mãos dadas falseando união em meio a mentiras e sombreados.
Nos perdemos, mas por certo a vida nos trará novas estradas! E se algum dia o destino nos colocar frente a frente num novo encontro, tudo
que peço é que a gente se reconheça no respeito e amor que um dia nos uniu.

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