O trem que chega é o mesmo trem da partida...


 A manhã chegou mais rápido do que Ester esperava, isso porque na noite anterior faltaram minutos no relógio para organizar os muitos detalhes da bagagem. Foram tantas as peças de roupa trocadas, sapatos separados e em seguida abandonados no armário, qual seria o melhor perfume para o embarque, amuletos e mimos  que iriam guiar a viagem tão cheia de expectativas, possibilidades e mistérios.

Os cabelos de Ester já estavam grisalhando, não era mais uma garota aos olhos do mundo, mas em segredo ela guardava tanta meninice, olhos cheios de sonho, vitalidade, fome da vida, de servir, dos doces, dos prazeres, do novo. O tempo passara rápido demais e ela se esqueceu de envelhecer. Estava extremamente feliz porque essa aventura era fruto do seu mérito, escolha, parcerias com amigos queridos, fortalecimento da consciência, propósitos e coragem. A sua melhor viagem, no seu melhor tempo.

Talvez tenha sido umas das primeiras a chegar na estação e entrar no trem, queria reservar o melhor lugar, a janela que lhe permitiria olhar as paisagens dos mais variados ângulos, ao mesmo tempo que garantir fácil acesso aos demais vagões para encontrar velhos amigos e conhecer uns tantos novos, queria também saltar nas paradas do trem para colher flores.

Investigou aonde seriam os jantares, se haveria cadeiras confortáveis, percebeu instrumentos musicais alinhados ao canto aguardando quem os acariciaria. Gostou do balcão do bar que prometia bons vinhos e caldos quentes nas noites de frio. Cada objeto estava impregnado da força da longa história que precedia aquele momento e do delicado silêncio que abre espaço para o novo que chega.

Penso que a sensação era a mesma que Ester sentia nos primeiros dias de volta às aulas da infância, cadernos com capas coloridas, seu nome gravado com esmero, livros novos a serem folheados, os professores, amigos a reencontrar e novos encontros. No meio da sua maturidade, vestida nas suas elegantes roupas de senhora, Ester sorriu  internamente a alegria inconfessável de se perceber tão adolescente.

Por fim tratou de reservar o banco ao lado do seu,  isso ela também teria se envergonhado de confessar para alguém. Sim, ele dissera que não viria, que seus braços enredavam agora alguma outra moça, talvez mais jovem, mais bonita.

 A cena dele escondendo o rosto entre envergonhado e culpado enquanto dizia:"_ Não consigo seguir contigo porque você me lembra o homem que fui e já não pretendo mais ser.  Quero começar de novo, do novo, com o novo", jamais lhe sairia da memória.

Naquele dia ela só quis partir, limpar a poeira dos sapatos pra não levar nem um grão de terra daquele chão. Teve a certeza de que não voltaria, ainda que levasse consigo afetos, lembranças e um embalar gostoso dos colos que lá recebeu.

Planejar essa viagem fora uma mistura de esquecer e ao mesmo tempo lembrar de quem na verdade ela era. Por isso quando Ester guardou meio sem jeito aquele assento vazio era porque sentia esperança,  reconhecia para além do orgulho e ego que amava profundamente aquele rapaz, que o queria ali para começar de novo,  dividir o caminho, os acenos de despedida, promessas de breve retorno, o se deliciar com cada novo vilarejo, cada por de sol. Humberto sempre fora muito curioso, amoroso, seria um prazer ser conduzida pelo seu espírito de menino investigador e livre. Com certeza teria curiosas e longas histórias a repetir nas noites em que o sono lhes escapasse.

Ester observava atenta e ansiosa cada novo passo apressado pela estação. Ele podia estar atrasado depois de ter percebido que era ao lado dela que ele gostaria de fazer esse novo Humberto. Quem sabe lhe fizesse uma surpresa depois dos tantos monólogos e perguntas que ela se viu fazendo quase constrangida de si mesma, em busca das respostas que nunca chegaram.

Ela tirou as luvas e esfregou as mãos que instintivamente se colocaram em posição de prece. No seu coração havia uma profunda fé de que ele viria, dessas crenças tolas que se associam aos apaixonados.

Olhou o relógio da estação e restavam menos de 3 minutos para partirem, pensou em fazer as últimas perguntas ao maquinista, indagar se havia chance de mais uns segundos de espera porque alguém que nunca lhe dera certezas poderia chegar. Queria parar o tempo, segurar as portas do trem e recebe-lo num abraço.

Ester chorou em silêncio quando ouviu aquele apito inconfundível, a voz do trem que cantava "o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também despedida". Fechou os olhos porque não queria ver os rostos do que acenavam na estação, sentiu na boca as lágrimas amargas da decepção... ficou assim alguns minutos, o coração serenou, estava cansada, muito cansada. Adormeceu.

Acordou com um homem de olhar penetrante e sereno lhe perguntando se poderia  sentar-se ao seu lado. Ele parecia tão suave e encarava Ester como se fossem velhos amigos.

Foi quando ele perguntou: "- Você não se lembra de mim? Já conversamos sobre arco-íris, potes de ouro, abundância, perdão, recomeços. Lembro que você não prestou muita atenção", ele disse num bonito sorriso. E completou: "_ Quando falávamos seu olhar parecia buscar algo no passado. Já eu estou aqui, no presente, meu nome é Pedro".

Talvez tenha sido o cheiro de café vindo da cafeteria ou os girassóis que abundavam na estrada, porque Ester se sentiu em casa, sorriu um sorriso sem reservas para Pedro, e simplesmente confiou. Haveria muitas histórias não somente para contarem um ao outro,  mas para fazerem juntos.

Sem perguntar ele segurou sua mão como se esse fosse o movimento natural a se fazer, ela gostou da temperatura, da firmeza, da presença e da disponibilidade daquelas mãos, daquele homem.

"- Eu sou Ester, uma velha adolescente com sonhos inconfessáveis", disse quase sedutora num sussurro no ouvido de Pedro. Riram juntos, tinham todo tempo do mundo.

Nunca mais ouvi Ester falando da estação de onde ela partira muito tempo atrás. Se sentiu saudades não nos disse, se carregou mágoas deve tê-las perdido no caminho, se havia um rosto a se lembrar deve ter ficado distante,  esmaecido entre as nuvens da noite.

O que todos contam é que Ester e Pedro continuam juntos procurando potes de ouro, se amando e servindo... O tempo? ah quem se importa com isso!


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