Das flores


 Se está azul o céu, se pássaros cantam, se sucatas convivem com ratos e porcos pelo quintal, se o forno é aquecido no preparo do pão, se traições aconteceram um dia, se nunca houve perdão, se filhos choram e reclamam supostos direitos, se há almoço em família, se uma quase anciã cantarola canções do cerrado, se alguém grita em cólera,  se há promessas jamais cumpridas e que continuam sendo repetidas, se lá estão recordações de dor, se existem lembranças das brincadeiras de infância, se em meio a tudo o amor existiu e insiste e persiste, se há almas doentes do corpo e da mente, se há cura entre ervas e carinhos, se há homens infantilizados, ou mulheres diminuídas, se é possível ouvir com clareza saberes ancestrais, se a fonte diariamente digere água cristalina, se há desorganização na ordem de etiquetas, se alguém viu um colibri ou um pássaro azul, se há risadas entre ironias, se os lençóis cheiram alecrim e um livro de poesia repousa esperando ser lido, se há mistério entre os manguezais e cajás-manga, se destinos se enredaram e formaram uma família, se há abraços apertados e eu te amo sincero, se as chaves se perderam, se há o saborear do delicioso almoço servido à mesa, se alguém retira cada erva daninha que persiste invadindo o jardim, se São Francisco caminha nas poças d'água numa tarde de tempestades, se a vela apaga e o relógio bate doze badaladas e alguém medita num solitário banco amarelo, ainda assim....

Tudo floresce: rosas, margaridas, bougainvilles, acácias, brincos de princesa.

Os gramados se enfeitam em cores, indiferentes a tantas palavras, histórias, estórias, teimosamente a vida floresce.

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