- Coça as minhas costas?
"- Boa tarde moça bonita!" ouvi repetidas vezes.
Ele tagarelava desinibido, viagens, projetos, pandemia, separações, falou da vida e do que estava desenhando para tempos que se avizinhavam. Escutou muito pouco, quase nada perguntou.
E rápido demais acariciou meus cabelos, beijou minha boca com uma profundidade como se intimidade tivéssemos, as mãos escorregavam pelos meus ombros enquanto eu serpenteava buscando distância. Vi que ele olhava em soslaio as curvas dos meus seios e coxas ... ri internamente daquela pressa tão pouco sedutora.
Propositalmente me demorei observando os livros da estante, comentando das roupas espalhadas pelo chão, sorvendo silenciosamente o licor que nem era tão bom assim. Escancarei as cortinas, abri as janelas e respirei lentamente o ar fresco experimentando a calma de quem está bem, feliz e plena.
Foram muitos movimentos unilaterais e de desatenção aos sinais do outro. Então ele recitou versos de fidelidade, elogiou a mulher que parecia ver sem olhar de fato, falou de caráter e beleza, afirmou maturidade que não vi estampada nas pilhas de louça na cozinha, exibiu um carro grande, caro e potente como a fazer promessas de uma virilidade que duvidei pudesse cumprir.
Em mim foi se formando um misto de carinho, como aquele que toda mulher tem pelos filhos, gatos e homens em geral, com um certo desalento pelas distâncias enormes que já tão cedo se colocavam.
E foi quando para meu espanto ele tirou a camisa com rapidez e desenvoltura, virou as costas como se esse fosse o mais natural dos nossos ritos e disse:
"- Coça as minhas costas?".
Recordo que paralisei por uns segundos diante do comando, talvez pela lembrança de um amor que já estivera nos meus braços noutros tempos com a mesma pergunta. Entristeci, apesar do riso nervoso que ecoou no ambiente. Será que agradeci o jantar? Recordo ter buscado minha bolsa que deixara estrategicamente na entrada e saído apressada sem muitas delicadezas.
Dessas delicadezas que se manifestam frente a cumplicidade e intimidade, que naturalmente acontecem aos que se permitem o tempo necessário para a construção de uma relação verdadeira entre um homem e uma mulher.

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