Era uma vez um menino...
Era um vez um menino desses que estufam o peito como se capazes fossem de vencer batalhas ruidosas e cheias de perigo. Em seu coração monstros e dragões são vencidos, no mesmo minuto em que uns tantos frutos do caminho são devorados. Vez ou outra na cabeça do garoto é possível ver um capacete feito de um par de meias ou cueca puídas, e na cintura o canivete retirado escondido da gaveta do pai.
Um lindo menino, camiseta manchada, suor escorrendo feliz pelo rosto... Ele olhou para mim com um sorriso maroto, gostei do olhar curioso, da mágica que inventava com as mãos e a ausência de pressa. Em todas as vezes que nos vimos era possível mais uma história ou um ultimo pedaço guloso de bolo.
Há quem diga que esse menino cresceu, que se passaram 30, 40 anos, talvez mais. Bem sei que ele se confunde nesses calendários, tanto quanto eu, confusa, pensava havia encontrado nele um homem crescido.
Homens desses que estufam o peito como se capazes fossem de vencer batalhas ruidosas e cheias de perigo. Reuniões com clientes importantes, discussões técnicas, planos de caminhos profissionais relevantes e rentosos, beijos cuidadosos e subliminares promessas de amor.
Um lindo homem, camiseta de botão com iniciais bordadas no peito, cheiro de perfume exalando do dorso forte. Ele olhou para mim com sorriso curioso e sedutor, macho caçador esparramando seu cheiro por todas as fêmeas disponíveis do caminho. Me apaixonei, amei aquele homem que imaginei existir.
Tenho o sentimento de que pediu mais do que ofertou, comeu a refeição principal e a sobremesa dos dois pratos, como se houvesse uma fome que não se sacia. Talvez buscasse em mim o seio de mãe.
Não sei bem quando eu olhei o homem e finalmente vi o menino faminto, buscando nos caminhos, becos e atalhos a comida mais fácil, a que demanda poucos ingredientes e nenhum preparo. Sim, eu julguei, havia aos meus olhos uma mistura de prazer, curiosidade, culpa, confusão, deslealdade, ingenuidade, experimentação sem responsabilidade. Insaciedade. Fome do que falta dentro.
De fato isso tudo cabe bem aos meninos que permanecem agarrados às saias das mães, que exaustas costumam se dividir entre outras bocas famintas, sem nunca saber o quanto falta ou sobra a cada cria. Acertarão e errarão sempre.
Talvez um dia o menino olhe o homem e perceba que ambos seguem juntos, que crescer tem honradez, compromisso, escolhas com perdas e ganhos - a mais ambiciosa das aventuras. Quem sabe o homem olhe o menino e lhe diga que o que recebeu foi suficiente e que hoje será nutrido pelo seu abraço e que ser homem é muito divertido e saboroso, tanto quanto as deliciosas frutas do caminho.
Quem sabe eu ame tanto o menino quanto amei o homem e possa receber a ambos já sem quaisquer expectativas ou intenções amorosas de futuro, queridos amigos de caminhada. Quem sabe eu simplesmente os deixe ir, enquanto os vejo tagarelando animados, pai e filho de si mesmos, lá longe, virando a curva da estrada, bem distantes de quem eu sou e busco nesses novos dias.
Era uma vez um homem e um menino, que um dia se assim quiserem, possam vir a ser o príncipe patriarca de uma linda mulher que os ame incondicionalmente. E assim, todos serão felizes, exatamente como acontece nas histórias verdadeiras da vida.

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