Not Again !

  

Certa noite, novamente, lá estava ela ofertando carícias e ouvindo o lamento choroso do homem que se dizia exausto e confuso. Ela palmilhou com as mãos cada poro do seu dorso, doando alegremente energia, se conectando serena a cada pedaço do corpo do homem que nunca deixara de amar. O sentimento era de felicidade. Se recorda de ouvir a respiração ritmada dele, as vezes excitada noutras relaxada, e também as palavras que falavam de saudade e carinho. Um belo reencontro. Talvez ela transbordasse fantasias e sensibilidade, muito provável que, ele fosse somente um moleque carente, mimado e narcisista, barganhando por colo.

De um lado a eterna oferta de profundidade e completude e do outro, o doar pouco, a recorrente evasão; manipulação; o não dizer, mas sim o insinuar difuso que não se compromete. Trocas claramente desiguais. Talvez não haja erros nesse arranjo, somente dessintonia. Tempos, interesses e lugares de si diferentes.

Beijaram-se sem serem invasivos, quase um toque de irmãos. Ela esperou o pedido de desculpas pelo abandono, pelas traições feitas ao amor, aos planos de vida e trabalho, tantas vezes partilhados; pela deslealdade de ter sido deixada sem aviso no meio da estrada, mãos desentrelaçadas, exatamente quando esperava que o aperto de mão se tornasse mais forte e fosse guia para uma história de vida mais completa. E como numa guerra em que o soldado acovardado não trava a sua melhor batalha, retornando vivo, mas sem honra, ela soube por meio de terceiros que ele segurava um novo e estranho amor nos braços.

Ele meio espantado se desculpou, mas sem de fato acreditar que houvesse reparações a serem feitas, na sua régua não houve erros. Mostrou fragilidades, medos, culpas por erros pretéritos e incapacidades, mas ela jura ter visto no tom de voz a arrogância narcisista de quem ainda não aprendeu o valor da entrega e do respeito ao sentimento do outro.

Entretanto, houve nesse novo tempo, momentos em que essas almas se reencontraram: choraram juntos, rezaram, energia de passes a espíritos de má fé,  percorreram novas estradas empoeiradas, molharam os pés no velho e caudaloso rio, trocaram confidências, acenderam velas, riram das histórias vividas, brindaram a vida, até fizeram planos. Ela chegou a acreditar que reencontrara o homem que um dia julgou existir. Mas será que esses momentos também aconteceram para ele com igual significado?

Ingênua e confiante, ela virou as costas para seguir alegre, sozinha e serena o novo caminho que se abria. No seu coração a eterna esperança de quem não teme crescer e acredita que, quem se coloca ao seu lado, tanto quanto ela, quererá pagar o preço de se tornar uma pessoa melhor.

Crescer implica em encarar o que já não serve mais, como um colocar-se de pé e caminhar ereto sobre as pernas aguentando o peso do próprio corpo ao invés de persistir num engatinhar de experimentações, se esgueirando no chão, pelas cadeiras da sala, a ouvir sem entender a fala dos adultos. Crescer é sempre uma escolha, que por muitas vezes, excluem. Trocar a papa adocicada por alimento sólido, o leite do seio da mãe por uma aguardente de boa safra.

Foi então que numa fração de segundos, em meio a um suspiro que sequer se formara completamente no peito, ele cravou nova espada nas costas da garota, o sangue escorreu profundamente triste pelo dorso, o choro se derramou decepcionado pela traição à delicadeza, à cumplicidade, à amizade que começava a se reconstruir. Lá estavam as eternas covardias e manipulações travestidas de silêncios e ocultações inocentes. 

Ele disse em resposta, como se fosse portador da verdade clara e sem nuvens: “Não foi por maldade, não preciso dizer para você o que fiz ou farei com outra mulher”. De fato, entre estranhos, em relações sem amorosidade e lealdade, nada precisa ser dito, não há compromisso.

Quem se afirma sensível deveria saber da simbologia e importância do rito e do gesto. Por outro lado, a empatia é só um substantivo feminino para alguns, é um erro querer que o outro olhe a vida com as mesmas lentes que as suas. Ele afirmou nunca ter carregado um punhal na algibeira, jamais empunhado uma espada, nunca ter participado de uma briga. Sequer levantou a voz para alguém,  não poderia ter causado tais ferimentos.

Já ela, enquanto sangrava, sem conseguir evitar vibrou entre raiva, vergonha e dó de si mesma... a questão ecoava: "- O que será ela ainda não aprendera?".

Silenciou em si mesma até que num relâmpago entendeu o porquê depois de transcorrido tanto tempo,  estar novamente amargando na boca o mesmo sentimento de deslealdade e sentir no rosto o dissimulado e conhecido beijo de Judas. Again. Finalmente compreendeu que só foi ferida e apunhalada porque se colocou lá, novamente na mesma cena, diante do mesmo homem que não compreende o que é cumplicidade. Estava lá ofertando a mesma intensidade de sentimento, acreditando e ouvindo as mesmas velhas e circulares histórias. Again.

A lição que vem sendo assimilada é que nunca é o outro! A sua dor, o seu engano, as suas fantasias, são suas. O outro pode ter manipulado sorrateiramente um punhal ou brincado imaturamente com facas como fazem os meninos, mas você é responsável por não haver protegido o próprio coração. Ao outro cabe fazer (ou não fazer) o que lhe vai à consciência, vontade e crenças, não está sob seu controle.  Já .... aceitar a comida requentada, permanecer em ambientes tóxicos e de dor, calar, dar mais do que recebe, ser conivente com a estagnação,  não crescer, não amar a si mesmo, ah isso está na sua cesta, nas suas mãos. É seu. Erra quem se deixa aprisionar e ferir.

Talvez, por isso, dessa vez ela não chorou, fechou os ouvidos às frases adocicadas e sem lastro quando expostas à luz da verdade, viu instalar-se no seu corpo uma espécie de repulsa ao cheiro, a voz, ao olhar, às memórias, às mesmas velhas e circulares histórias. Afinal dessintonia leva a  caminhos diferentes, e está tudo bem. 

Não desejou o mal e nem o bem. Aliás o desejo sumiu, o respeito esmaeceu... foi quando o amor viu  que ali não tinha espaço para florescer, se levantou, fechou a porta atrás de si, não sem antes limpar cada grão de poeira grudado às suas sandálias e sem olhar para traz, respirando aliviado, lúcido e feliz, se foi.

Penso que vi se abrir um largo sorriso no rosto dessa menina, ela permanece com fé e confiança na  semeadura e na abundante colheita que já se insinua em outros campos. Por sua vez, mulher e amor entenderam que não se lançam sementes vivas em solo infértil. Not Again !


 [MR1]

 

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